Entrevista com Alexandre Farto (Vhils)

marcos333 qua, 12/07/2011 - 13:22

Hoje nós teremos o grande prazer de lhes mostrar uma entrevista fresquinha com um dos grandes nomes em destaque nas artes plásticas e na arte urbana mundial: Alexandre Farto aka. Vhils. Alexandre é hoje reconhecido pelo suas criações "destrutivas", na entrevista ele fala mais sobre sua trajetória, técnica, estilo e outros assuntos interessantes, confira.

Para mais informações sobre Alexandre visite alexandrefarto.com.


1) Antes de tudo eu gostaria de agradecer em nome da equipe do Abduzeedo por aceitar fazer essa entrevista, é um grande prazer para nós. Gostaria de começar perguntando quando começou o seu interesse por arte, graffiti e arte urbana?

Creio que o interesse pelo mundo da expressão visual, veio do que testemunhei nas ruas de Lisboa e Portugal enquanto crescia: um contraste entre a decadência dos murais políticos que tinham sido pintados nas décadas de 1970 e 1980 depois da Revolução em 1974, e a sobreposição com a publicidade capitalista e as suas cores e formas que chegou em força a partir de finais da década de 1980. Comecei a pintar graffiti quando tinha uns 10 anos, mais a sério com 13, e foi a partir do graffiti que me interessei pela arte em geral. Aliás, foi o graffiti que me levou a estudar artes na escola, e tudo o que conheci depois em termos de arte mundial, seja contemporânea ou clássica, teve origem nesse interesse pelo graffiti.


2) Que artistas lhe serviram e lhe servem de referência?

Quando comecei admirava writers ligados ao graffiti mais hard-core de Lisboa, alguns dos quais depois se tornaram amigos, assim como writers de todo o mundo que via em revistas e filmes etc. Crews de Lisboa como GVS R1 3D 2S LEG 1003PV foram grandes referências, assim como EWC da Polônia, SDK de França, entre outras. Depois veio a descoberta do trabalho do Banksy que me inspirou uma nova direção, não em termos de estilo mas em termos de conceito e aquilo que se poderia explorar na arte urbana. Hoje em dia admiro o trabalho de muita gente: Gordon Matta-Clark, Katherina Grosse, JR, Conor Harrington, Word 2 Mother, NeckFace, Faile, Blu, Gaia, Barry McGee, Os Gêmeos, entre muitos, muitos outros, cada um por razões diferentes.


3) Você ficou muito conhecido por começar a fazer uma arte urbana destrutiva, algo até então ainda não pensando e tentado da mesma maneira. Como você desenvolveu esse estilo e como o descreveria?

O desenvolvimento desta minha linha de trabalho tem essencialmente duas bases: uma é o graffiti na sua vertente mais destrutiva, com o qual estive ligado durante muitos anos; a segunda é a técnica do stencil que descobri quando andava à procura de novos caminhos que me permitissem expressar uma nova linha de comunicação. Da primeira captei aquele conceito fundamental do acto de destruição enquanto força criativa – com base nessa ideia desenvolvi um modo de trabalho que usa a remoção, decomposição ou destruição. O conceito é a ideia de que somos compostos por uma série de influencias que nos dão forma através de camadas históricas, sociais etc., que provêm do meio em que crescemos. De forma muito simbólica creio que, se removermos algumas destas camadas, deixando outras expostas, podemos trazer à superfície algo daquilo que deixamos para trás, coisas que foram esquecidas ou postas de parte, que ainda são parte daquilo que somos hoje. A velocidade com que a tecnologia se tem desenvolvido nos últimos tempos não nos permite absorver e refletir sobre as mudanças (estas novas camadas sobrepostas) que nos têm afectado. Eu tento sublinhar este processo e em geral o meu trabalho pode ser visto como uma espécie de arqueologia que procura entender o que se esconde por trás da superfície das coisas. Estas ideias encontraram expressão quando comecei a experimentar com a técnica de stencil, e entendi que podia inverter o processo para ganhar mais impacto: em vez de criar através de uma construção por camadas, explorei a ideia de criar através da remoção de camadas. Fui experimentando com este processo em vários suportes – cortando aglomerados de cartazes, corroendo a tinta de serigrafias com ácido, etc. –, e naturalmente foi ganhando expressão de forma cada vez mais crua e brutal. Quando passou para as paredes já me pareceu natural trabalhar essa remoção, esse negativo, através do martelo, escopro e martelo pneumático – esse processo que parece ser violento e brutal, mas cujo resultado é para mim expressivo e poético. O resultado foi visualmente interessante e permitiu começar a incorporar a parede como um dos componentes físicos inerentes à própria intervenção, ao contrário do que acontecia com a pintura em que era apenas um suporte. Daí ao uso de explosivos foi outro passo, mas para este último já foram meses de pesquisa e testes para ser refinado. Estas fases de pesquisa e experimentação são algo que me dá muito prazer, e que acaba por ser uma das partes fundamentais do meu trabalho.


4) Hoje existe uma grande discussão quanto a legalidade da arte urbana e o graffiti, quais os limites que um artista deve impor em seu trabalho e o que seria exatamente o espaço público. Qual a sua opinião sobre esses assuntos?

Como cidadão entendo que é um assunto complexo e não pode ser visto de forma leve ou reduzido ao preto e branco, sim ou não – há muitos factores a ter em conta. Do ponto de vista mais pessoal, por outro lado, entendo que não deve haver limites à arte, nem o espaço onde ela pode ser expressa, manifestada ou exposta. Nenhuma regra se aplica à arte.

5) O que você acha da atual transição de diversos artistas urbanos para o mundo das artes plásticas e galerias? Arte urbana continua sendo urbana enquanto dentro de um museu?

Sim se for honesta na sua essência e se usar esse espaço para ser o que é e não para ser domesticada, que é uma tendência natural dos espaços fechados porque a arte em espaço fechado é, essencialmente, uma arte comercial. Os museus podem ser excepções a isso porque no geral fomentam a mostra da arte, mas a galeria não, em geral expõe para vender. Há naturalmente uma grande diferença entre aquilo que é produzido livremente na rua e aquilo que é produzido para ser exposto num espaço fechado, mas não creio que sejam opostos ou se excluam um ao outro. Para quem quer expressar o seu trabalho tanto um espaço como o outro podem ser válidos, mas temos é de saber olhar para essas produções no seu devido contexto: arte de rua é no espaço público – o que é feito para uma galeria ou museu é essencialmente uma transposição do trabalho de um autor que se expressa num outro contexto, e tem de ser visto como tal. O que cada artista faz com o seu trabalho é algo que apenas a ele ou ela diz respeito. Nesse sentido não tem mais legitimidade intervir na rua ou numa galeria, mas a intenção essencial é diferente, e por isso exige uma outra linguagem – há casos em que resulta, e outros em que não, o que não deixa de ser interessante.


6) Como você descreveria o seu dia-a-dia?

É complicado porque nunca sei ao certo como vai ser... Para começar depende onde estiver, e como no último ano e meio não tenho parado mais do que uma semana ou duas no mesmo local tem sido muito variável. Em geral trabalho todos os dias, seja em casa, no estúdio, ou até mesmo no aeroporto quando estou em viagem. Não tenho uma separação definida entre trabalho e lazer, a minha vida envolve muita produção, muita pesquisa e muito trabalho que me dá prazer, não tenho feito muito essa separação. É muito comum estar envolvido em vários projectos ao mesmo tempo, e geralmente em países diferentes. Tenho uma base em Lisboa e outra em Londres, é interessante estar sempre em movimento, mas por vezes é difícil gerir tudo – por vezes tenho mesmo de parar e tirar uns dias.


7) Qual você considera sua melhor peça até o momento?

Não sei, normalmente são sempre as ultimas que faço.


8) Nos diga cinco lições que você considera fundamental

1- Não há Regras

2- Não existem materiais menores

3- Persistência é a chave

4- No erro está a criação

5-Go with the flow


9) Nos diga sites que você costuma acessar

woostercollective.com

unurth.com

notcot.com


10) Novamente agradeço o seu tempo e disposição Alexandre. Obrigado.

About the author

I'm Marcos Torres, I'm a Graphic Artist from Brasil. You can know more about me at my Website, at my Tumblr or at my Flickr.

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